Homenagens 18 MAR 2019 ÀS 12H50

Uma trajetória de fé e adoração na Cidade Ocian

Conheça a história de Paiva, perto dos 102 anos

Por CBESP

Os quadros na parede conectam memórias do passado e do presente. As fotografias em preto e branco eternizam momentos de sua juventude e dos sete filhos, enquanto as coloridas registram as conquistas na melhor idade como o batismo aos 95 anos e o aniversário de 99. Os diplomas e certificações atestam a integridade de um homem exemplar. “Trabalhei 30 anos como servidor do Estado na Secretaria de Segurança Pública no corpo de policiamento dentro da guarda civil, eu recebi aquele diploma por 20 anos de bons serviços prestados. Outro recebi por 25 anos sem nenhuma punição e também ganhei um do Hospital das Clínicas por fazer parte da viatura que salvou a vida de uma criança”, conta Liberino Tibúrcio de Paiva, de 101 anos, mais conhecido como irmão Paiva, membro da Igreja Batista da Cidade Ocian (IBCO), desde 2005.

Irmão Liberino Paiva completa 102 anos (Arquivo Pessoal)

Ao relatar sua história, Paiva mantém o tom de voz baixo, mas ao contar a trajetória de José do Egito, a fuga de Ló e sobre os Dez Mandamentos o tom sobe e é perceptível uma rapidez durante a narrativa. Ele gesticula, faz descrições detalhadas sobre o cenário, se indigna com os pecados cometidos pelos personagens como se tivesse lido pela primeira vez, mesmo demonstrando conhecer cada trecho dos textos citados. É justamente por meio das histórias bíblicas comentadas por ele que somos levados a conhecer o coração de um homem fiel a Deus e apaixonado pela igreja.

Paiva nasceu em 21 de março de 1917, na Bahia. Em sua juventude, se mudou para Marília, em São Paulo, e trabalhou plantando algodão em uma fazenda, local em que conheceu a Cristo. “Era uma congregação batista, lá, o pastor ia uma vez por mês. O diácono responsável se chamava Casimiro e todos os hinos eram do Cantor Cristão. Eles cantavam uma canção de abertura do culto e encerravam cantando ao Deus de amor e de imensa bondade”, comenta citando Maravilhas Divinas, hino de número 007.

Após alguns anos, Paiva veio para o centro do estado e exerceu diversas atividades até ingressar na Guarda-Civil. Em 2000, mudou-se para Praia Grande e, em 2005, chegou à IBCO por recomendação de irmãs que haviam congregado com ele em Marília. “Quando visitei a igreja, o pastor Eduardo me perguntou ‘quer que eu vá te buscar todo domingo?’ eu respondi que não, porque eu já sabia onde era”.

Desde a primeira visita até os dias de hoje, ele não perde os dias de culto. É sempre um dos primeiros a chegar, senta-se na segunda fileira, atrás do pastor e faz questão de guardar o lugar do líder da igreja com o seu boné. Enquanto a orquestra não faz a abertura, ele cumprimenta aqueles que vão chegando e se diverte observando as crianças. A Bíblia que carrega está sempre dividida por diversos marcadores que mostram as passagens que foram lidas por ele nos últimos dias. “Eu me sinto muito bem desde que comecei a ir lá (IBCO), a alegria dos irmãos, as pregações, os louvores...Todos os dias de culto, os irmãos vêm me buscar. Frequentei outras igrejas, mas nenhuma era como a nossa por isso eu digo que a Igreja Batista é nota 10”, destaca.

Apesar de ter conhecido a Deus na juventude, foi na velhice e após a chegada na IBCO que Paiva deu os passos mais importantes na fé como o batismo que ocorreu em 2012, quando ele já estava com 95 anos. A explicação para isto está na construção de um relacionamento com os membros da igreja e no aperfeiçoamento do estudo da Bíblia. “A igreja batista deixa as pessoas à vontade. Lá, eles ensinam muito bem, os pregadores pregam com muita clareza e depois que a conheci, aprofundei muito minhas orações”, comenta.

Compromisso com Deus é a palavra que descreve a rotina de Paiva e que ilustra sua trajetória de fé e adoração. Mesmo possuindo uma sabedoria centenária, ele fala sobre a eterna busca de ser transformado continuamente pela graça. “Eu oro todos os dias de manhã, minhas orações me salvam. Levanto da cama, fechos os olhos e elevo o pensamento em Deus e Jesus, faço a oração do Pai nosso e depois de terminá-la, oro pelos pastores, diáconos, meus irmãos da igreja e parentes. Peço para Deus me ajudar, que ele abra meu coração para o bem, feche para o mal e me ensine a amar a Deus e aos meus irmãos. Oro do jeito que Jesus me ensinou, pois ele disse que tudo que quiséssemos, pedíssemos ao pai no nome dele”, diz.

Ao olhar os quadros na parede e revisar a própria história, Paiva não demonstra arrependimentos. A serenidade e a certeza de ter vivido de maneira correta que ele possui é algo para poucos, mas ele não faz mistério e fala qual é o segredo para uma vida plena com Cristo. “Sabendo de cor os 10 mandamentos não tem como errar. Honrar pai e a mãe, não furtar, amar o próximo como a ti mesmo, não ter inveja, gula e ganância. Eu particularmente me considero rico desde que conheci o evangelho e acredito que se você seguir estes mandamentos, além de ser abençoado por Deus e também pela justiça dos homens, porque você está em cima das coisas materiais e espirituais”.

Na mesma parede, dividindo espaço com sua cronologia está o calendário, marcando o mês de março. Paiva aponta para nos mostrar a data mais importante deste ano: seu aniversário de 102 anos, que acontecerá no dia 21. Após compartilhar tantas lembranças ele faz considerações finais sobre si mesmo e comenta sobre o presente e futuro. “Eu estou muito feliz com o agora, o tempo vai passando, mas eu estou empurrando a vida devagar, cuidando da minha saúde, meus filhos também vêm para cuidar de mim e fico durante a semana esperando chegar domingo para ir à igreja”.

A história sobre a grandiosidade da vida simples de um homem que se entregou a Deus de todo coração nos inspira a prosseguir e aperfeiçoar a nossa própria trajetória de fé.

(Texto escrito pelo pastor Alexandre Luquete, ministro na Igreja Batista da Cidade Ocian, litoral paulista)