Batistas SP 08 MAR 2017 ÀS 09H00

Mulher deixa rua e droga e vive para teologia

Íntegra da entrevista publicada na Batistas SP

Por Chico Junior

Imagens: Agência StilloBrasil / Foto Criativa

Silvia se viu em Saulo, o fariseu. Para ela, havia algo em comum entre ambos. Uma pessoa ruim diante de uma nova vida. Silvia, uma mulher, perdeu quase 40 anos. A prisão levou 25. As drogas, 14. “Fui treinada pra ser bandida”, disse lembrando que saiu de casa aos 10 anos e de como viveu nas ruas até os 18.

Em 1975, Silvia vai presa. A alegria de criar a filha de 9 meses fica para trás. Ela jamais soube o que é ser mãe. Hoje, resgatada por Jesus e perto dos 60, Silvia deseja servir ao Senhor como teóloga batista.

Precisou superar primeiro a falta de instrução, vencida há três anos. “Quando a gente quer, eles sonham com a gente”, afirmou sobre o apoio da Missão Cristolândia.

Paulista nascida em abril de 1957, Silvia Regina Ferreira, 59, gosta de hebraico, língua que estuda no Centro Integrado de Educação e Missões (Ciem), no Rio de Janeiro. Membro da PIB de São Paulo, ela estagia na PIB do Andaraí (RJ).

Leia abaixo a íntegra dos trechos publicados na Revista Batistas SP

Como foi sua infância? 

O marido de minha mãe bebia muito, e batia nela. Daí eu sai de casa, fiquei nas ruas e me envolvi com a criminalidade. 

Hoje, criminalidade é muito associada às drogas. O que a senhora fazia à época? 

Àquela época menor não usava droga. Ai do traficante que fizesse isso. Perderia a vida. Fui treinada pra ser bandida por um homem que só mais tarde descobri que era o meu próprio pai. Eu era assaltante mesmo. Cheguei a ter uma gangue, até que fui presa.

Mas você sabia que esse homem era seu pai?

Não. Mas ele sabia quem eu era. Se aproximou e foi educado e me treinou... Depois, conheci o pai da minha filha e fiquei grávida. Tentei fazer as pazes com minha mãe. Ela tentou usar a gravidez para me levar de volta. 

Com quantos anos a senhora estava?

Aos 18 anos, e só saí da cadeia aos 43. Foram 25 anos. 

E como foi recebida quando chegou ao Carandiru tão jovem?

Todo mundo vale o nome. Eu era conhecida como a “Caçulinha”. Cada um abre o seu caminho. Eu abri o meu.

E sua filha? Como ficou nesse momento?

Minha filha ficou com minha mãe, que estava grávida esperando meu irmão. Ela registrou minha filha no nome dela. Vinte e cinco anos... Quando sai... Ela não me aceitou, como não aceita até hoje.

Quase metade da sua vida se foi na prisão. O que a senhora acha que mais perdeu?

Eu perdi a minha filha. Tudo que ia me fazer recuar era aquele bebê. Depois minha mãe morreu. Eu senti, senti, mas sinto muito mais foi ter perdido minha filha. Eu não vi nada dela. Nada. Tive ela pra mim durante 9 meses depois nunca mais. Quando sai, ela já era uma mulher casada e eu já tinha neto. Só que eu não sabia. 

O que pretendia fazer ao sair da cadeia?

Eu consegui me instalar na cadeia, e trabalhava lá. Me aperfeiçoei como costureira. Em 99 fui para o semi-aberto. Tinham me arrumado um emprego. Mas eu não sabia nem ir nem voltar. Eu estava perto de Osasco e vinha para a (rua) Ataliba Leonel. Depois em junho me puseram na rua, em liberdade. Mas eu não queria voltar a roubar. Não queria nada disso.

E o que fez?

Não tinha o que fazer nem pra onde ir. A intenção era procurar a família. Mas não tinha ninguém. Minha mãe já tinha morrido e eu não conhecia meu irmão. Procurei emprego, fiz um teste (profissional) e passei, mas não fui admitida porque tinha acabado de sair. O atestado de antecedentes me segurou. Quando vinha subindo a rua, aí encontrei alguém que tinha “tirado cadeia” (tempo na prisão) comigo. Ela me convidou pra ir ao Mato Grosso do Sul. “Não quero voltar a roubar”. “Vou te levar para uma pessoa e você vai ganhar bem”. “Vou fazer o quê?” “Chegando lá você vai ver. Quer ir?”. “Não vou precisar roubar? Não”. Fala o que fui fazer numa fazenda lá?

O quê?

Fui fazer droga. Fazer “pedra”. Depois de alguns meses estava viciada. Mesmo sem usar. Só com o cheiro daquilo. Quando descobri que estava viciada fiquei com raiva de tudo e de todos, até de Deus.

"Eu tava muito cansada de tudo e de todos... Aí perguntei: ‘O que o Senhor quer comigo?’."

O que fez com o dinheiro que ganhou?

O crack rouba tudo seu. Ele rouba sua alma.

Ficou quanto tempo por lá? 

Três meses e depois voltei pra São Paulo... Eu sabia o “peso”. Sabia que fui “residente” (ex-presidiária). Se a polícia entrasse na fazenda, iria presa e nunca mais seria solta. Eu trouxe todo o meu dinheiro, mas já estava viciada. Eu fumava muito.

E ao chegar a São Paulo...

Fui para as ruas. Fiquei aqui, na Cracolândia. Levava droga de um lugar pra outro pra ter dinheiro e “pedras”.

Ficou usando droga por quanto tempo?

Quatorze anos.

Saiu de um inferno...

E entrei em outro. Saí de uma cadeia e entrei em outra.

"O crack rouba tudo seu. Ele rouba sua alma."

E para se libertar?

Um dia apareceu uma criança que me pediu ajuda. Pensei no meu neto que poderia ser daquele mesmo tamanho. Fui me recobrando. Mas não conseguia sair da dependência. Já tinham se passado dez anos que eu estava na rua. Eu vou morrer... Mas eu tinha problema com os “amarelinhos” (cor da camisa na Cristolândia). A polícia eu até enfrentava. Mas eles, quando via de longe, fugia. Um dia, a Fernanda (Mazzini), me deu um abraço e disse no meu ouvido que Jesus me amava. Isso mexeu comigo. Ela mexeu com meu coração. Eu queria tomar banho. Estava suja. Perguntei: “Como você abraça alguém nessas condições? Eu que fumo e você que fica louca?”.

Quem foi ela?

Foi a Fernanda (Mazzini), Radical da Soraia (Machado, esposa do pastor Humberto, do Ministério Cristolândia). Naquele dia eu não estava suportando a minha sujeira. Eu queria tomar um banho e descansar.

"Ela orou por nós um dia. E hoje a gente ora por ela."

A senhora foi logo no primeiro dia?

Não. Eu fui para uma casa de convivência. E comecei a ficar praticamente o dia todo lá pra ver se eu engordava alguns gramas.

Estava com quantos quilos?

Tava com uns 40... Um dia o pastor Humberto pôs a caixa do lado de fora e eu ouvi a história de Lázaro... Não passou muito tempo e teve uma festa na Cristolândia e eu tava com fome. E eu queria comida... Um dia eu tava muito cansada de tudo e de todos, e fumei, fumei. Aí eu perguntei: “O que o Senhor quer comigo? Não me deixa morrer...”. Marquei um encontro com Deus, mas o diabo veio mexer comigo. A mesma pessoa que me falou do Mato Grosso do Sul me disse que precisava de alguém. Eu falei: “Não vou. A moça falou pra mim que eu ia pra um lugar legal, que era até cor-de-rosa”. Eu me sentia muito cansada. Já estava com 40kg, mas a droga nos amortece. Eu lembro que ainda fiz um trato com Deus e disse que se eu saísse das drogas eu ia servi-Lo de verdade. Eu ia arrumar um jeito.

E aí? Como foi sua conversão?

Comecei a ver que nem todo mundo era ruim. Pedi pra Mirian (Leite): Eu quero me batizar e pedi pra Deus que queria ver meu irmão. Daí, me falaram que eu ia ganhar um “presentaço”. Era meu irmão, Davi. Ele tinha ligado.

“Quero ser teóloga”

Já havia feito contato com ele?

Não.

E como ele a encontrou?

Ele estava procurando desde que soube que saí da cadeia. Falaram para ele daqui (Cristolândia). Ele confirmou que eu estava aqui e veio pra cá. Chorei muito. Fiquei muito contente. E ele havia feito a mesma coisa que eu fiz. Disse que se me encontrasse iria descer às águas. A gente tava indo para Aracaju. Chorei muito. Fiquei muito contente. Daí, confirmei meu voto com Deus. Eu me batizei lá. Ele me falou: “Graças a Deus eu te achei. Por isso eu sou crente”.

Ele foi a ponte para o restante da família.

Ele é (enfatizou o é) a ponte.

E como foi o reencontro? E sua filha?

Quando fiz 57 anos, a Soraia me prometeu uma festa. Eles fizeram a festa juntos e eu ganhei de presente os meus dois netos. Vi aquelas crianças que pareciam o Davi, fiquei olhando, pensei que fossem filhos dele. Eram os filhos da Adriana, minha filha. E a gente conversou... Ela disse: “Faz muito tempo...”. Eu vou esperar o tempo de Deus.

"Sonho tem que ser regado, se não morre."

Ela é cristã?

Minha filha era a única convertida. Abandonou. Ela orou por nós um dia. E hoje a gente ora por ela.

Quando a senhora decidiu estudar teologia?

Num seminário em Campinas ouvi sobre a conversão de Paulo e não entendi. Porque aquele homem tão ruim de repente vira um apóstolo. Como? Por quê? Comecei a perguntar. O pastor tentou me explicar e disse: “Por que você não tenta fazer teologia?”. Não dei muita bola. Mas um dia a Geane (Campos) estava pregando e me lembrei do meu voto de servir a Deus e falei a ela: “Geane, eu quero ser teóloga”. Conversamos e um dia a Soraia me disse: “Vai estudar!”.

Foi assim que foi para o Rio de Janeiro?

Isso, foi em 2014. Tinha acabado de fazer o ensino médio. Chegou o papel (de inscrição). Preenchi e agora tô lá.

E o plano agora é...?

É acabar (o curso) em 2018. E quero servir. Ainda quero ser teóloga. Eu gosto de Hebraico (risos).