Opinião 16 JUN 2017 ÀS 13H51

Depressão no ministério e ministério em depressão

Doença destrói silenciosamente líderes e ministérios

Por Rogério Nunes de Lima

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), a depressão é uma das principais doenças incapacitantes do mundo e mata mais homens do que as guerras, o câncer e a AIDS juntos.

Neste tornado, os líderes religiosos formam um dos grupos que mais apresentam depressão. Sabemos disso, mas pouca gente fala sobre ou oferece apoio adequado às pessoas, e especialmente a líderes que sofrem de depressão.

Em 2011, o Brasil era o 3º mais depressivo do mundo (Fonte: BioMed Central)

Andrew Solomon diz que “depressão é a imperfeição no amor”. É a incapacidade do indivíduo de amar e receber amor, ou mesmo de ver o amor onde ele está. Por isso os líderes de nosso tempo sucumbem tão facilmente: o amor é nosso instrumento de trabalho e tema das nossas mensagens, isso só para falar do afeto e não do Amor com “A” maiúsculo como João descreve em sua primeira carta.

Esta imperfeição fere as pessoas ao redor do depressivo, primeiro sua família e depois outros círculos, incluindo a Igreja.

É necessário dar devida atenção ao assunto

Meu primeiro colapso depressivo aconteceu em 2009, voltando de um funeral que acabara de oficiar. Estacionei o carro e liguei para minha esposa: “não sei como voltar pra casa”, eu disse, “simplesmente esqueci o caminho”.

Ela me indicou o caminho de volta e, conforme fui dirigindo, as memórias foram retornando. Achando que era um simples estresse, não procurei auxílio médico ou psicológico, apenas compartilhei com colegas de ministério que pouco sabiam do problema e concluíram que era realmente um estresse.

Algumas semanas depois desse episódio, passei a experimentar diferentes sintomas espaçadamente a cada cinco ou três dias, que iam de dificuldade para sair da cama a desespero inexplicado em lugares com muitas pessoas.

A depressão incapacita as pessoas a construírem relações

Deixei de olhar as pessoas nos olhos. Minhas orações não tinham tanta gratidão como antes. Não tinha mais prazer em tomar banho, comer, brincar com minhas filhas. A depressão me tomou por completo. Iniciei tratamento psiquiátrico e psicológico com o qual prossigo até hoje.

Deixei o ministério e não congrego com a frequência que deveria. Coloquei o foco em minha vida devocional e espero por um milagre.

O grande problema é que a doença não surge de uma hora para outra, há uma série de fatores que vão se acumulando e, num determinado momento, faz ruir toda a estrutura, como um prédio abandonado. Mas posso compartilhar sobre as causas da minha depressão.

Sempre calado, passei por muitos problemas e discussões - não só no ministério, fique claro - de maneira passiva. No ministério, ainda há o agravante de ser o centro das atenções, o modelo que as pessoas querem seguir. Este estilo de vida me levou a internalizar muitas ofensas e injustiças. Na minha mente, ou eu seguia o caminho como ofendido ou como ofensor.

A medicina desconhece a causa da depressão, trata os sintomas. É combater a febre sem tratar o problema

Mais maduro, percebo que poderia ter procurado resolver os conflitos de maneira saudável, com soluções mais justas onde todos dividissem igualmente as cargas.

Para resumir ao ministério, dois tipos de pensamentos consumiram minha saúde mental. O primeiro deles era a cobrança por resultados sobre os quais não tinha controle, como o crescimento da igreja, sua saúde financeira, o motivo do pecado do fulano ou respostas simples para questões complexas.

Como cristãos, devemos servir de apoio às pessoas depressivas

Admito que cuidar de uma igreja é uma arte difícil, mas levei a dificuldade ao extremo. Queria resolver estes problemas e mais outros que não me diziam respeito. Eu mesmo cobrava resultados no ministério que não havia meio de alcançar.

O segundo tipo de pensamento foi o paradoxo entre ser líder religioso e seguir a Cristo. Líder religioso bem sucedido conforme os padrões que muitos cristãos querem, fique claro.

Jesus mesmo, para muitos cristãos de hoje, não seria visto como um líder vitorioso. Senti uma dificuldade enorme em aplicar o Sermão do Monte à minha vida e continuar sendo um líder nos moldes exigidos. Tentar andar com “um pé em cada skate” tornou meu tombo maior ainda.

O que eu faria hoje para evitar a depressão? 

● Não colocaria o ministério como uma prioridade, mas como algo que acontece espontaneamente conforme o soprar do Espírito Santo;

● Entenderia que a seara não é minha, é do Senhor da Seara, e que minha responsabilidade é realizar a minha colheita apenas;

● Estudaria toda a doutrina, mas me concentraria no essencial da vida e nos Evangelhos;

● Teria mais amigos de fora da igreja onde congrego, com quem pudesse rir, viajar e construir coisas e relacionamentos;

● Não me cobraria tanto;

● Procuraria ajuda mais cedo, logo aos primeiros sintomas de depressão;

● Faria mais coisas que alegram a alma, como ir a jogos de futebol, comer na companhia de gente nova, brincar com as crianças da rua, conversar com moradores de rua, sair mais com minha esposa.

Muitos companheiros de jornada lutam contra uma depressão branda todos os dias e podem ser rapidamente socorridos, enquanto muitos outros já estão dependentes dos remédios, deixaram ministérios, perderam a família, contam suas pontes de safena e cateterismos. Que Deus nos abençoe e nos ajude a sermos o suporte uns dos outros.

Rogério Nunes de Lima
Pastor de 1997 a 2011, atualmente servidor público

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